4. INTERNACIONAL 8.5.13

1. FADIGA DE MATERIAL
2. ATENTADO  DEMOCRACIA
3. CONDENADA  DVIDA ETERNA

1. FADIGA DE MATERIAL
Greve de fome em Guantnamo joga luz sobre um dos grandes fracassos de Obama, que, sem apetite para liderar, vive choramingando contra o Congresso.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     O presidente Barack Obama prometeu fechar a priso de Guantnamo no seu primeiro mandato. No conseguiu e jogou a culpa no Congresso. Agora, ao completar 100 dias do segundo mandato, Obama quis restringir a venda de armas nos Estados Unidos em resposta  comoo nacional causada pelo massacre na escola de Newtown, em que um franco-atirador matou vinte crianas e seis adultos. Tambm no conseguiu e jogou a culpa no Congresso. Na semana passada, cobrado pelas sucessivas derrotas no Parlamento, Obama disse que no  bab de congressista: "Vocs parecem sugerir que eles no tm responsabilidade e que cabe a mim faz-los se comportar direito. Isso  tarefa deles. Eles foram eleitos, os membros do Congresso so eleitos a fim de fazer o que  certo para os seus eleitores e para o povo americano". 
     Fosse bolivariano, Obama estaria usando essa retrica contra deputados e senadores para arengar s massas e introduzir alguma estupidez arbitrria, como fechar o Congresso ou ampliar os poderes presidenciais. Bem, Thomas Jefferson no  Simn Bolvar, Obama no consegue fechar nem uma priso, quanto mais o Congresso, e provavelmente no quer mais poderes, pois nem sequer usa os que j tem. Em nenhum outro assunto sensvel do governo a inao de Obama e sua irrefrevel inclinao a responsabilizar o Congresso so to dramticas como no caso da priso de Guantnamo, onde o governo mantm 166 detentos. Entre eles, h um punhado de terroristas confessos e uma vasta maioria j autorizada a deixar a priso mas ainda encarcerada, sem acusao nem previso de julgamento. 
     Na semana passada, chegou a uma centena o nmero de presos em greve de fome em Guantnamo. Os detentos dizem que o estopim da greve, iniciada em fevereiro, foi o modo desrespeitoso com que guardas da priso manipularam o Coro durante uma revista. A direo da priso nega essa verso e diz que os presos inventaram a histria do Coro para justificar a greve e chamar a ateno da imprensa. Nenhuma das partes discorda, porm, que a causa subjacente do protesto  a sensao cada vez mais concreta dos presos de que, acontea o que acontecer, eles jamais voltaro para casa. Viver nesse estado de indefinio e desesperana, diz o advogado de um dos presos, " pior do que estar no corredor da morte". 
     Entre os 100 grevistas, mais de vinte  os nmeros so controversos, algumas fontes falam em 21 e outras em 23  esto sendo alimentados  fora. O preso  amarrado numa cadeira ou numa cama e uma equipe mdica lhe introduz uma sonda pelo nariz atravs da qual corre uma dieta lquida, de modo que o preso no morra de inanio. O tratamento, aplicado duas vezes ao dia,  doloroso e antitico. A Associao Mdica Mundial advertiu que impor alimentao a pacientes conscientes e competentes para decidir por si mesmos viola o cdigo de tica mdica. Jeremy Lazarus, presidente da associao americana, escreveu carta ao governo na qual lembra que as equipes mdicas em Guantnamo esto ferindo a tica profissional. 
     Culpa do Congresso? Controlada pelos republicanos, a Cmara dos Deputados sempre faz tudo o que est ao seu alcance para barrar os planos de Obama, mas o Senado, com maioria democrata, tambm d contribuies decisivas. Em 2009, Obama pediu 80 milhes de dlares para transferir os presos para solo americano. O Senado rejeitou o pedido com votao asfixiante: 90 votos contra 6. No ano passado, o Senado proibiu a transferncia de presos para terceiros pases com problemas de segurana, eliminando uma das alternativas para esvaziar Guantnamo. O resultado  que, desde o ano passado, ningum mais saiu da priso. Em 2010, dos 166 presos, 86 foram liberados para transferncia. Uns porque eram suspeitos de crimes menores, outros pela ausncia de provas. Passados trs anos, quase nada aconteceu. Em parte, quem diria, por culpa do presidente Obama. 
     Depois da captura do terrorista que planejava explodir uma bomba num voo de Amsterd a Detroit no Natal de 2009, Obama  e no o Congresso  proibiu a transferncia de presos para o Imen, onde existe um brao ainda ativo da Al Qaeda. Dos 86 presos prontos para repatriao, 56 so do Imen. Alm disso, o Congresso autorizou o Pentgono a examinar caso a caso e, a seu critrio, abrir excees para transferir detentos. O Pentgono, ningum sabe por qu, nunca usou essa prerrogativa. No ano passado, quando o Senado proibiu o envio de presos para pases com problemas de segurana, Obama ameaou vetar a lei. Mas no vetou. Em vez disso, editou uma interpretao legal (que os americanos chamam de signing statement) dizendo que, na condio de comandante em chefe, tem poder constitucional para derrubar as restries e transferir presos para process-los em cortes civis nos Estados Unidos e mant-los detidos em outra priso ou sob custdia de outros pases. Mas nunca usou o tal poder constitucional. 
     No primeiro mandato, Obama encarregou o diplomata Daniel Fried de esvaziar Guantnamo. Fried viajou o mundo negociando a transferncia de mais de setenta presos. Em janeiro, ele foi designado para outra funo e seu posto foi eliminado. Nada pode ser mais claro do desinteresse da Casa Branca no assunto, e, dizem os advogados dos presos, a notcia foi devastadora para os detentos de Guantnamo. Mas, diante da repercusso da greve de fome, Obama voltou a afirmar que a priso  "insustentvel" e que no se pode aceitar que 166 homens fiquem presos "perpetuamente numa terra de ningum". 
     Em Washington, vai-se formando um consenso segundo o qual Obama no tem apetite para liderar nem gosto para negociar com o Congresso. Ele quer que seus ouvintes  entre eles, deputados e senadores  sejam convencidos atravs de seus discursos elevados, e ponto. Na batalha para restringir armas, Obama fez um discurso eloquente no Congresso pedindo que o tema fosse votado  e foi aplaudido de p. Em seguida, destacou o vice-presidente Joe Biden para negociar com os polticos e retirou-se de cena. Aconteceu o inacreditvel. A esmagadora maioria da populao americana, coisa de 90%,  a favor de algum controle de armas, mas Obama no conseguiu mais do que 54 votos no Senado, Casa em que os democratas tm maioria. O que leva um presidente a ganhar a opinio pblica e perder no Parlamento? A lio parece evidente: na poltica,  preciso fazer poltica. Ou, parafraseando Obama, cabe ao lder convencer os parlamentares a "se comportarem direito". 
     A inatividade de Obama talvez explique outro aparente paradoxo sobre o terrorismo. Duas semanas depois do atentado em Boston, o FBI fisgou informaes relevantes. Prendeu dois suspeitos (Azamat Tazhayakov e Dias Kadyrbayev, ambos de 19 anos, acusados de tentar eliminar provas do atentado) e descobriu que Tamerlan Tsarnaev, o mais velho dos irmos terroristas, morto na perseguio policial, tinha conexes com William Plotnikov, insurgente islmico na regio do Daguesto. Com o avano das investigaes, uma pesquisa mostra que 68% dos americanos aprovam o modo como Obama est conduzindo o caso de Boston. O paradoxo  que 35% acham que seu trabalho para combater o terrorismo  insatisfatrio.  um descompasso tpico de um lder capaz de reagir, mas incapaz de agir. 
     As polticas de Obama  reforma da imigrao, controle de armas, at a combinao de corte de gastos pblicos com aumento de impostos  so bem-vistas pelo eleitorado, porm sua popularidade est no fundo do poo. Por qu? A nica explicao encontrada pelos analistas polticos  que Obama, aos olhos do eleitor, no faz o bastante para implement-las. Sobre Guantnamo, Obama disse uma verdade lapidar: " um problema persistente que no vai melhorar. Vai piorar. Vai apodrecer". Isso s ser evitado por um presidente capaz de fazer histria, e no por um presidente contente em apenas testemunh-la.

LIDER FRACO - Ativistas pedem o fechamento de Guantnamo em protesto em Nova York, e o presidente Obama, numa montagem feita pela prpria Casa Branca, usando a franja de Michelle, sua mulher: sobra senso de humor mas falta empenho para governar.

AS CONEXES - Na foto acima, Ddiokhar Tsarnaev ( dir.) posa com dois amigos, Azamai Tazhayakov ( esq.) e Dias Kadyrbayev (no centro), na Times Square, ambos presos como cmplices no atentado de Boston. Na foto ao lado, William Plomikov (de blusa cinza), com extremistas islmicos no Daguesto: ele  suspeito de ter recrutado Tamerlan, o autor do atentado de Boston morto pela polcia.


2. ATENTADO  DEMOCRACIA
O espancamento de deputados da oposio por aliados do presidente Nicols Maduro equivale a um golpe de estado em que s a parcela democrtica do Parlamento  fechada.
NATHALIA WATKINS

     Empossado aps uma eleio repleta de irregularidades, o que o presidente da Venezuela, Nicols Maduro, mais teme  ter sua legitimidade contestada. Na tera-feira passada, sete deputados opositores foram espancados durante a sesso semanal da Assembleia Nacional. Eles acabavam de iniciar um protesto por ter tido os microfones confiscados. Nas semanas anteriores, o presidente da Cmara, o chavista Diosdado Cabello, j havia destitudo os rivais da presidncia das comisses permanentes e anunciado a suspenso do pagamento do salrio dos 64 deputados que integram a bancada democrtica. Foi por terem sido excludos do debate parlamentar que eles apareceram no plenrio munidos de apitos, cornetas de futebol e um cartaz com os dizeres "Golpe no Parlamento". Em poucos minutos, uma dezena de integrantes do PSUV, partido criado por Hugo Chvez, avanou os poucos metros que separam as duas bancadas e comeou a esmurrar os colegas e a quebrar os seus computadores. Qualquer um que se aproximava para salvar uma das vtimas tambm virava saco de pancada. Os que tentaram gravar as imagens tiveram suas cmeras e celulares roubados ou destrudos. "Estvamos encurralados e tentamos nos proteger", disse a VEJA o deputado Jos Gregorio Contreras, que conseguiu gravar o espancamento em vdeo, com seu telefone. 
     Para Contreras, o ataque foi premeditado. A Assembleia Nacional tem duas entradas, uma usada pelos governistas, do lado esquerdo, e a outra pelos opositores, do lado direito. Nesse dia, a porta mais prxima da oposio estava trancada com cadeados e correntes. Isso impediu que os deputados atacados fugissem com segurana. S lhes restava sair pela porta da esquerda, onde se formou um verdadeiro corredor polons de chavistas descontrolados. A deputada Mara Corina Machado teve quatro fraturas no nariz e precisou ser operada. J Jlio Borges quebrou a mandbula. "Ele levou um soco atrs do outro, no conseguiu nem reagir nem fugir", diz Contreras. O deputado Amrico de Grazia foi empurrado de uma escada e pisoteado at ficar inconsciente. O governo acusou a oposio de incitar a violncia e simular escoriaes com maquiagem. "Eles insistem em nos mostrar como agressores, mas as fotos comprovam que tudo o que tnhamos eram apitos e cornetas", disse Grazia a VEJA. Outros deputados agredidos no quiseram contar o que aconteceu, com medo de grampos telefnicos. 
     A preocupao do governo de Maduro com as aparncias tem sua razo. Caso tomasse o Legislativo  fora pelos tradicionais mtodos ditatoriais, impedindo a entrada dos deputados ou recorrendo s Foras Armadas, seria acusado de autogolpe por fechar o Parlamento. O carimbo ditatorial inviabilizaria o apoio de outros pases ao regime chavista. Isso vale principalmente para o governo brasileiro, cuja conivncia com os desmandos de Maduro, calcada na afinidade ideolgica entre o PT e o chavismo, depende de a Venezuela manter algum verniz democrtico, ainda que tnue. J os verdadeiros democratas venezuelanos no pretendem ceder. Na prxima sesso legislativa, prometem comparecer protegidos com capacetes.


3. CONDENADA  DVIDA ETERNA
Amanda Knox lana um livro para reafirmar sua inocncia.

     Nem todas as provas e sentenas judiciais podem ser suficientes para absolver uma bela jovem de um misterioso crime ocorrido em meio a jogos sexuais em um cenrio paradisaco. Depois de passar quatro anos em uma priso em Perugia, na Itlia, condenada pelo assassinato da estudante inglesa Meredith Kercher, em 2007, Amanda Knox foi solta por uma corte italiana em outubro de 2011. Os advogados da americana e de seu namorado, o italiano Raffaele Sollecito, conseguiram mostrar que a polcia cometeu erros graves na coleta das provas. Como consequncia, o fecho do suti de Meredith com DNA de Sollecito e uma faca com sangue da vtima e traos genticos de Amanda tiveram de ser desconsiderados pelo tribunal. Amanda retornou  cidade de Seattle, nos Estados Unidos, e Sollecito retomou os estudos universitrios. Na tera-feira passada, quatro dias antes do lanamento do livro Waiting to Be Heard ("Esperando para Ser Ouvida", em ingls)  em que Amanda narra o julgamento, a condenao e a absolvio por assassinato e pelo qual recebeu 4 milhes de dlares em adiantamento , o caso sofreu uma reviravolta. A Suprema Corte italiana ordenou a reabertura do caso de Amanda e Sollecito. Os promotores convenceram a corte de que o julgamento de 2011 no comprovou a inocncia deles por falta de provas forenses. 
     Na viso dos americanos, Amanda foi prejudicada pelo  trabalho do promotor Giuliano Mignini. Alguns de seus mtodos de investigao foram questionados, como o de interrogar a r por mais de dez horas em italiano, quando ela ainda mal compreendia o idioma. A conversa no foi gravada e Amanda teve de assinar uma declarao com a qual no concordava. Para muitos ingleses e italianos, porm, Amanda  uma assassina fria. Essa convico popular se baseia ora em demonstraes de insensibilidade, ora em puro preconceito: ela no chorou pela morte da amiga, tinha um vibrador no formato de um coelho cor-de-rosa, comprou calcinhas dias aps o crime e trocou carcias com o namorado enquanto a polcia os investigava. Em seu livro, Amanda refuta a imagem de devassa e garante que ficou abalada com a morte da colega. O novo julgamento ser realizado at o incio de 2014. Como no h evidncias adicionais, o mais provvel  que no d em nada. Amanda, hoje com 25 anos, no ser obrigada a comparecer. Se condenada, no ser extraditada. A nica pessoa que permanece presa  o traficante Rudy Guede, cujas digitais foram encontradas no quarto onde Meredith morreu. 
TATIANA GIANINI


